9 de nov de 2014

OSN 2,6 10/11 331



Mistérios são músicas 
do universo.

Os deuses cantam, 
vez ou outra.

Quanto a nós, 
nós sempre dançamos.


(Cássio D. Versus)

28 de out de 2014

Soneto


(Ao Conde de Ericeira, D. Luis de Meneses,
pedindo louvores ao poeta não lhe achando ele préstimo algum)


Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
Na sétima entra já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.


(Gregório de  Matos)

Dilúcida Noite dos Embriagados


Olhando para a estrela,
mais cintilante e longínqua,
tão viva e radiante,

perguntei,
do fundo de todo ser 
que poderia eu ser,
"será que me vês como eu te vejo?"

e do fundo
de um fundo
ainda
mais profundo

o esplendor celeste
a questionar meu mundo,

"não vejo, mas te tomo à flor das luzes.
e tu, será que sentes como eu te sinto?"


(Cássio D. Versus)

18 de out de 2014

;)



(Fraga, Revista Tchê / 1985)

13 de out de 2014

Sonho


Por noites sombrias, sem rumo, a caminhar,
Vagueia - pobre infortúnio - um ser audaz;
Busca, em vão, para salvar-se, a luz solar,
Volúpia de sonho, que tanto bem lhe faz.

Mas na esteira das vagas se perde o incapaz,
De um mar de angústias, e na frigidez polar
Das tristezas num deserto de cor lilás,
Sem jamais conseguir, e sem jamais tentar.

Tamanho desespero, um rio de luz avista,
Sobressaindo-se às nuvens da obscuridade,
E corre afoito para esse sonho egoísta.

Porém, ao chegar, ofegante, ao fim da pista,
Esvai-se entre seus dedos a oportunidade,
E nas tristes gotas morre a felicidade.


(Ricardo Miguel Tamura, São Paulo, 19 anos)

8 de out de 2014

Cuidados


não deixe teu nome
jogado sobre a toalha da mesa
ou preso
à baba da minha boca imunda.
cuida teu corpo
na necessidade que tens
das palavras,
na vontade que tens
dos teus esquecidos desejos.
cuida tua mente
teus olhos
e deixa que do resto
cuidam tuas secretas verdades.

acorda do sonho que não é teu
e vive o instante
que teu desejo
desespera.


(Gustavo Neiva Coelho, Goiás - GO)

Agonia e Êxtase


 Atentamente, observar a folha que cai,
morta, relutante ainda, sobrenadando no ar
que a propele.
Auscutar-lhe os tropeços, trapos de brisa...
Cúmplice inerte do vento úmido,
gélido de inacessibilidade,

Imóvel, a folha cai,
Brota em êxtase sua agonia
de seiva errante.
Goteja ao solo enfim, serena,
serenada - ser em nada.

Parte intrínseca do humus, rica
de podre, ela vivifica.
Revigora a força,
ratifica a rota,
caule acima, rumo à vida.
........................................
Seu sono de folha, em sonho,
arranca o urro, berro de verde,
de vingança, de vigília, de visgo
vertente - vegetal vibrando em vento
na mata.


(Geraldo Luiz Robusto Fonte, Rio de Janeiro - RJ)

A Coragem de Ser Poeta


Para onde foi a minha coragem de se ser gente?
Para onde foi aquele sonho dourado?
Um lápis,
O papel.
Aquelas palavras por vezes lindas,
Para onde foi o meu cavalinho azul?
O olhar do Carlitos?
As nuvens de algodão doce
e a chama da vela?
Acabaram com eles,
Com meu lápis e meu papel,
Meu sonho foi derrotado,
Meus olhos vendados,
Minha boca, amordaçaram.
Só meu coração ainda bate forte,
só ele ainda luta por mim.


(Giovanna Ferreira Dealtry, Rio de Janeiro - RJ)
 

Existencial


Na duvidosa certeza do encontro
neste misto de esperança e desencontro
viajo na vida
por ruas sem saída
Mas
nas alamedas do insólito
desemboco em avenidas
talvez verdes campos ilimitados
na sôfrega procura
           de que?
de quem?
na trilha do sonho
na vermelha imensidão da febre
sem saber por que
e como


(Geraldo Maranhão, Rio de Janeiro - RJ)

Encontro


Néctar dos meus pensamentos
Nem sonho nem fantasia
Mas o encontro do dia-a-dia

Vamos dançar e sentir
a música cósmica do universo
A Verdade que nos intimida
A afinidade que nos aproxima
E a compreensão que nos eleva

Rendo-me diante de tua plenitude e do teu silêncio
Manto do meu ser espiritual
De aura misteriosa e angelical
És como verso e prosa
De um poema buscado e cantado
Dentro e fora de mim


(Florisvaldo A. Galvão, Itabuna - BA)

Sobre as Mágicas


Ser um morcego
e estender as ansiosas asas de pele
através da noite!
Que me importa teu nojo?
certamente não entraria em tua casa
nem em casa alguma;
iria sim
pelas torres escuras,
pelas copas das árvores,
folhas, folhas,
frutos...
iria pela noite dos desejos e dos bruxos
onde os homens dormem.
Quem me importam os homens?
que me importam?
Importa o vôo,
a miragem
e o cheiro dos insetos
invadindo meu focinho,
enquanto a brisa fresca vai
acariciando-me as pulgas do pelo,
companheiras
na solidão eqüina.
As caretas, as vozes guturais,
o pipilar, os cumes, os hiatos,
os mergulhos no vazio
o calendário das seivas
e das beberragens...
Amanhã, a madrugada
apareceria sem pena de nós;
o "eu" morcego entraria
num sacrário de pedras
para dormir com seus irmãos,
todos de ponta cabeça,
pendurados
sobre as mágicas.


(Eloah Margoni de Souza, Campos - RJ)

6 de out de 2014

Basicamente, é isto


"Quando estiveres na presença de uma mulher, quer seja a tua mãe ou o grande amor da tua vida ou alguém que estás a entrevistar para um emprego, certifica-te que ela se está a sentir o centro do teu mundo."



4 de out de 2014

Gentleman Who Fell


I feel your closeness
like a shotgun
a chill within my soul
I touch your finger
know your darkness
your passion takes its' toll

can't see that this talk is cheap
let the suffering go


(Milla Jovovich)

30 de set de 2014

Mágoa


E cai como uma linda cachoeira dourada.
Retorno à minha mágoa, sorrio, olho, e peço:
- Mais uma por favor.

(Antonio Fernando de Almeira, Curitiba - PR)

22 de set de 2014

Dos Musgos Mares


Águas vivas
Vertem ébano
Fundo inverno

Velhas ondas
Vagas tortas
Falsa encosta

Chuva estia
Vento revira
Vulto transpira

Rumo à deriva
Raia incrédula
Lágrima fria

(Cris de Souza)

Intrínseco


O segredo volta a ver
Deixa claro o profundo
Busca destreza no parto

O medo volta a crer
Deixa caro o fecundo
Brusca estranheza no ato

Mesmo que reaja sempre
Não há veia sem deixa

Mesmo que haja ventre
Não há vida sem queixa

(Cris de Souza)

Haveres


Há um vazio enorme
No que preciso
E não ostento

Há um fio disforme
No que improviso
E não sustento

É sempre tão complexo
Desterrar o vão
Que só a gente entende

É sempre tão conexo
Desregrar o são
Que só a gente aprende

(Cris de Souza)

A Metáfora


Basta uma tenda
Pro levantar do terreno
Que se endurece por osmose

Num pedaço soturno
Lagarta se descasa

Basta uma fenda
Pro libertar do tempo
Que se enaltece metamorfose

Num espaço oportuno
Borboleta bate as asas

(Cris de Souza)

Nem Freud Explica


Pra se livrar do embaraço
O ego desmente
Verdades iminentes

Pra se limpar do percalço
O ego defende
Mentiras inerentes

Mas o Eu se encarrega
Em desmascarar
Nos aponta toda sujeira

Mas o Eu não dá trégua
Em desarrumar
Nos desponta toda poeira

(Cris de Souza)

Na Ilha

 
Estranho barulho
São vozes ancoradas
Secando seus sais

Por trás do que calo
Há uma multidão de ais

Tamanho marulho
São fozes abarcadas
Molhando abissais

Por trás do que falo
Há uma solidão de cais

(Cris de Souza)
 

Oração do Verso Nosso


Verso nosso que estais ao léu
Conjugado seja o vosso pronome
Venha nós o vosso acento
Seja feita a vossa pluralidade
Assim no teclado, como no papel
O verso nosso de cada dia nos dai hoje
Perdoai-nos as nossas reticências
Assim como nós perdoamos o hiato estendido
E não nos deixeis cair em interrogação
Mas livrai-nos do ponto final
Hifén !

(Cris de Souza)

Do Ser Sem Rumo


Navega entre meus risos
Um choro perdido no mar

Enverga entre meus risos
Um choro retido sem ar

Meu ser circula nesse horizonte
Onde embarco as lágrimas
Que se disfarçam na espuma

Meu ser ondula nessa fonte
Onde abarco as lástimas
Que se esgarçam na bruma

(Cris de Souza)

Sem Retrato (do ser que não é)


Conheço o céu
Assim como o inferno
Sou íntima dos extremos

Conheço ao léu
Assim como o terreno
Sou íntima dos efêmeros

Sou do risco, sou do fundo
Mas sei corar abrigo
Meus altares são errantes

Sou do riso, sou do mundo
Mas sei chorar comigo
Meus pilares são mutantes

(Cris de Souza)

Da Arte Explícita


Te trago com os olhos
E sinto meus lábios
Em todos seus poros

És arte primeira
Da minha loucura

Te travo com a língua
E pinto minha pele
Em todas suas tintas

És parte inteira
Da minha procura

(Cris de Souza)

Pensares


"Penso em bem-te-vis pintados em versos soltos, mas que te abracem em texturas ardis, gorjeios anis das poesias violadas. Que te excitem em ondas diafánas, por cânticos ares, os quais espelham à grandeza. Penso em ti noutras correntezas, levada por brisa acarinhando a face, aninhada ao peito, bordada de borboletas, coberta de sutilezas. Que num ponto desse céu, nossas asas se retocam. Nossas águas se misturam, mesmo que por um instante, nas entrelinhas se evocam. Penso que o mistério que nos une é turquesa, matizando adiante, o lirismo enlouquente que perpetua esse instante. Numa foz, numa voz que deságua feito cachoeira, beirando delírios sem eira. Penso mais. Penso alto. Penso tanto. Em queda livre ao teu encontro."

(Cris de Souza)

Tchartkov


(auto-retrato, Gustave Courbet)

"Escute, meu rapaz", dizia-lhe com frequência seu mestre. "Tu tens talento, seria um pecado sufocá-lo, infelizmente, te falta paciência. Assim que algo te atrai, tu te lanças sobre ele sem cuidar do resto. Atenção, não vás te transformar num pintor da moda: tuas cores já são um tanto vivas, teu desenho não muito seguro, teu traço um tanto delicado. Costumas procurar os efeitos fáceis, as bruscas iluminações à maneira moderna. Cuida-te para não cair no gênero inglês. O mundo te seduz e eu tenho medo disso. Muitas vezes te vejo com um lenço de seda no pescoço, um chapéu muito brilhante... É tentador, sem dúvidas, pintar imagens da moda e pequenos retratos bem-remunerados; mas, creia-me, isso mata o talento em vez de desenvolvê-lo. Paciência. Amadurece longamente cada uma de tuas obras, deixa que os outros arrebanhem o dinheiro; o que é teu não te abandonará de modo algum." 

("O Retrato", Nicolai Gogol)

16 de jun de 2014

Na cela do inimigo público n° 1


você quer se matar? - perguntou Taylor. 
quero - respondi. 
então puxa esse cano aí em cima que prende a lâmpada da cela. 
enche aquele balde com água e coloca o pé dentro. 
desatarraxa, tira a lâmpada fora e enfia o dedo no encaixe, aí você sai daqui. 
fiquei olhando um bocado de tempo pra lâmpada. 
obrigado, Taylor, você é um verdadeiro amigão.


(Charles Bukowski)

Sábado


Hoje é sábado.
Pé de tabaco.
O tabaco é forte.
Bate na morte.
A morte é a luz.
Bate na cruz.
A cruz é de Cristo.
Bate no disco.
O disco é voador.
Viaja no espaço.
O espaço é profundo.
Se embebeda com o mundo.


(Cássio D. Versus)

Deus


Deus ê uma reta isotrópica paralelo a si mesmo 
e sobre si mesmo vibrando num ângulo de 90 graus."


(Palavras do Comandante do Disco Voador)

9 de fev de 2014

Encarnação


(... fico enfim escasso
e desisto
da orla romântica,
não há socorro
nesse árduo meandro)

e te quero,
te quero rouca,
translúcida,
tépida,
crua,
nua,
faminta,
obsequiosa e
vagabunda.

te quero assim
desordenada,
resignada e aguerrida...

se essa porra for pecado
me transformo em deus
e refaço as regras da vida.

te quero como
o próprio Senhor
quis a Virgem Maria.


(Cássio D. Versus)

Me Descansa


e fui dormir
pra me acordar
na outra vida,

vida outra, vinda
assim no meu descanso
me diz, por que te danço
se me deixa despertar?

logo me acordo
e recordo o devaneio:
que pensar mais realista!
no amor e em poesia
só o sonho vem primeiro.
- e talvez só ele exista.


(Cássio D. Versus)

Ensonado


dormir
o dia inteiro
e sonhar
como quem
vive
forasteiro

acordar
tarde demais
e perceber
que todas
as horas
são marginais

se levantar
pra quê
quando o tempo inteiro é ida?!
e no final
vai perecer
como quem dormiu por toda a vida


(Cássio D. Versus)

Revolucionários, Sou


não quero amigo covo
nem velho ou vivo ou morto
quero a glória de um povo
apenas eu! - multidão de novo


(Cássio D. Versus)

E que o nada venha antes de tudo


ferida
e
árvore quebrada

o quão arriscada é a saída
de uma vida sem estrada?

Persegue o tempo percebido?

Acomete o pensamento arrependido?

Fica meio passo
do saber aborrecido
elaborado de ocaso

VIDA PERDIDA
melhor que
VIDA VENDIDA


(Cássio D. Versus)

O Diabo Soube


"Queremos tudo,
passo a passo,
descalços
no encalço
de qualquer mundo."

Antes de morrer o homem sofreu três vidas.

Por alguns minutos.


(Cássio D. Versus)

Entoada


Minha minha
companheira
dança
na ribanceira

Ayalla no campo

Faz um cado
sem tanto
saber da eira
corpo é circo de madeira

e a alma
um palhaço


(Cássio D. Versus)

(...)


Se me junto amado
em romance estendido
perco o tempo ludibriado
no meu verso proibido


(Cássio D. Versus)

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