17 de jun de 2011

Liberdade


Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...


(Fernando Pessoa)

Anira Olada


saudade daquel' ostensão
me era pouca a intrepidez
queria mais tua breve hora
que no minuto a vida fez

e eram voltas pelo quarto
corpos quase em vão capricho
a falta abrasa um sonho harto
fico gente o que era bicho

noites buscam graça ao alarde
sou-te assim me venho e penso
dá-me um beijo o quão covarde
nos era além o amor imenso (?)


(Cássio D. Versus)

16 de jun de 2011

Isto


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço,
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê.


(Fernando Pessoa)

15 de jun de 2011

Chove. Que fiz eu da vida?


Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!
Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!


(Fernando Pessoa, 23/10/1931)

4 de jun de 2011

(...)


"Batizei-me em água santa
por véu de céus concedida,
(oculto clã)
o que me era doce
esvai-se em queda interrompida.
Peculiar crueldade consumindo a infância,
guerra explícita.
Sangrando para amarfanhar
ilícitos amanhãs."


(Cássio D. Versus, 2006)

Ocorreu um erro neste gadget