24 de out de 2012

Na Rua do Sabão


Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!

O que me custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.

Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de cor.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!

Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
                                          para longe...
                                                                                  serenamente...
Como se enchesse o soprinho tísico do José.

Cai cai balão!

A molecada salteou-o com atiradeiras
                        assobios
                        apupos
                        pedradas.

Cai cai balão!

Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais
 
Ele foi subindo...
                         muito serenamente...
                                                     para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras do mar alto.


(Manuel Bandeira)

19 de out de 2012

Invernia


Ombros confortávelmente gelados.

Invernia.

Repousa os pés descalços
na terra branda e fria,

todas as dimensões passam

como um beijo sem vida.

O nosso avesso intenso
é um deus inteiro
querendo criar o universo.


(Cássio D. Versus)

Lacustre


uma trovoada
ataca
a minha liberdade


e um desespero
destruidor de espírito
quase faz-me esquecer
que há sangue
o suficiente
nesse mundo
para alimentar-me.

uma trovoada
ataca
a minha liberdade

e deixa claro
que um homem é tão livre
quanto um raio desvairado
em direção a terra que o aniquila.


(Cássio D. Versus)

A Rosa


A vista incerta,
Os ombros langues,
Pierrot aperta
As mãos exangues
De encontro ao peito.

Alguma cousa
O punge ali
Que ele não ousa
Lançar de si,
O pobre doido!

Uma sombria
Rosa escarlata
Em agonia
Faz que lhe bata
O coração...

Sangrenta rosa
Que evoca a louca,
A voluptosa,
Volúvel boca
De sua amada...

Ah, com que mágoa,
Com que desgosto
Dois fios de água
Lavam-lhe o rosto
De faces lívidas!

Da veste branca
A larga túnica
Por fim arranca
A rosa púnica
Em um soluço.

E parecia,
Jogando ao chão
A flor sombria,
Que o coração
Ele arrancara!...


(Manuel Bandeira)

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