13 de ago. de 2025

O Conde das Orgias


Chamavam-no de Conde, embora ninguém soubesse de qual maldita nobreza ele herdara o título (talvez de Satã, talvez do tédio). Era um homem que gargalhava diante da moral, esse "artifício frágil dos fracos". Suas vestes exalavam lascívia e bibliotecas queimadas (adorar incendiar os livros que terminava). Tinha um olhar que penetrava mais que os corpos que colecionava como se fossem moedas depravadas. Na infância, afogou bonecas antigas da mãe no poço e seduziu criadas com olhos de ausência humana. Quando os outros rezavam, ele dissecava passagens bíblicas à luz de velas negras, recitando versículos enquanto enforcava insetos com fios de cabelo. Foi educado por tutores que sumiram misteriosamente após lhe ensinarem latim, francês e os limites da vergonha (que ele jamais reconheceu).
Era um entusiasta do descontrole. Cultivava festas como se fossem rituais. Homens e mulheres (às vezes, ambos num só corpo) se dobravam diante dele como páginas de um livro depravado. Cada noite era um espetáculo de gemidos filosóficos, uma encenação do caos com lubrificante e Nietzsche.
Chamava seus orgasmos de "revoltas pessoais". Fazia amor como se vingasse todas as prisões da história. Dizia que a luxúria era o único caminho possível entre o absurdo da existência e o silêncio da cova. Recusava o amor - achava-o infantil, domesticado, quase cristão. Mas adorava a entrega desesperada dos que acreditavam nele.
No centro de seu palácio havia uma sala sem janelas, com paredes revestidas de espelhos sujos e tapetes manchados de gozo e velhas lágrimas. Lá, escrevia contos que ninguém ousava publicar e guardava cartas de amantes que ele chamava de “ex-vítimas voluntárias”. Às vezes, lia as cartas durante o jantar, entre uma uva embebida em vinho e um comentário sobre o niilismo de Schopenhauer. Mas mesmo o perverso cansa. As orgias começaram a parecer monótonas. Os gritos já não excitavam, apenas lembravam a ele que tudo no mundo termina: a ereção, o vinho, o riso, o próprio desejo. 
Foi então que decidiu organizar sua última festa. Mandou convites perfumados assinados com sangue e aromatizados de absinto. Os convidados compareceram sem saber que seriam, naquela noite, simultaneamente o banquete e os sacrifícios. A ceia foi embebida de delírio, e ao final, enquanto corpos desfaleciam em êxtase e ruína, ele se retirou para o sótão - com um sorriso mais lúcido do que deveria. Lá, nu diante do espelho, com a genitália repousando como um herói aposentado, olhou a si mesmo com desdém e desejo. E escreveu com batom no vidro: "E mesmo assim, não valeu a pena."


(Don Ford)

Exílio


A Orgia dos Pensamentos

“Exílio… palavra elegante para prisão sem grades. 
Diriam que fui banido por excessos, 
mas foi apenas coerência demais para uma humanidade 
que vive da contradição entre o que deseja e o que confessa.”

“Aqui, rodeado apenas por ovelhas que não sabem que são ovelhas,
percebo: o mundo não quer liberdade, quer permissão. 
Querem sentir prazer, mas só se alguém os absolver depois. 
Eu os oferecia o paraíso da carne - e eles me apedrejaram com versículos.”

“A carne me ensinou mais que qualquer padre. 
No toque de um estranho, encontrei mais verdade do que nas catedrais. 
A ereção, ao menos, não mente.”

“Sinto falta do cheiro da lascívia, do som das máscaras caindo com gemidos. 
Aqui, há apenas silêncio. E o silêncio, descobri, não é paz - é punição.”

“Não me arrependo. Arrependimento é a forma mais dissimulada de vaidade. 
Prefiro o peso da culpa ao vazio da virtude.”

“Na ausência de corpos, toco lembranças. 
E descubro que há prazeres que a saudade amplifica 
até que se tornem religião. 
Os melhores orgasmos que tive foram... póstumos.”

“Releio meus contos obscenos e percebo: escrevi evangelhos do avesso. 
Onde outros pregaram cruzes, eu preguei espinhas dorsais.”

“Se este for meu fim, que seja com beleza. 
Quero morrer ereto — e não falo só do corpo.”

“Já não há convite, nem plateia. 
Só um velho espelho e a minha última ereção de ideias.”


(D. Versus)

11 de ago. de 2025

I'm Not Human At All



"Cada passo meu carrega o peso de quem sabe
que a vida e a morte caminham lado a lado."

(Chacal Ferrabrás)

23 de jul. de 2025

14 de jul. de 2025

Sentimento do Dia


"Mesmo quando este mundo
tiver sido consumido pelo fogo 
e todos os seres viventes tiverem perecido,
meu mundo permanecerá intacto." 

(Sutra do Lótus, capítulo "Duração da Vida" do livro "Versos ao Eu")

26 de jun. de 2025

Milady


Je t’ai cherchée dans l’ombre des heures brisées,
Où l’amour s’écrit à l’encre des silences.
Ton nom — murmure ou malédiction — s’est glissé
Dans mes veines comme une étrange délivrance.

Les astres saignent quand tu tournes les yeux,
Et mon cœur, cet infirme, danse sans terre.
Es-tu lumière ou feu pieux des cieux menteurs?

Ou l’ultime prière d’un homme en guerre? 


(D. Versus)

Primeiros Últimos Passos


Envelheceu tentando parecer jovem e morreu tentando parecer vivo. O coração? Teve palpitações, mas nunca paixões duradouras. A alma? Esta foi murchando como planta esquecida em sacada sem sol. Seu último amor foi um gato, que fugiu no terceiro miado.

E agora, aqui está ele — na beirada do abismo, olhando o nada como quem reconhece um velho conhecido. Chamavam de “o primeiro passo”, mas ele, sempre do contra, procurou avidamente pelo último.


(D. Versus)

24 de jun. de 2025

Tristão e Julieta


Sinopse: Em um continente reconstruído sob leis afetivas e taxas por envolvimento, Tristão dedica-se a restaurar lembranças extintas — um técnico de recordações expurgado do afeto - enquanto Julieta, contraventora lírica, distribui emoções impressas em folhas clandestinas. O encontro entre ambos ocorre numa plataforma de neutralização sentimental, mas algo falha: eles se afeiçoam. Caçados por autoridades sensoriais, cercados por dependentes de serotonina ilícita e sabotadores passionais, os dois embarcam numa jornada por entre os escombros da última hemeroteca viva. Trocam carícias em códigos esquecidos e selam pactos com tinta orgânica, cientes de que o sentimento entre eles é o último arquivo impossível de ser apagado. Tristão e Julieta é uma odisseia distópica, visceral e poética - onde amar é crime, e morrer por alguém é o ato mais revolucionário.

...

"Um romance que parece escrito por Kafka com febre e Shakespeare de ressaca."
Revista Devaneio Cibernético

"A prova de que a paixão pode sobreviver até depois da última página."
Crítica Rádio MAC

"Perigosamente bonito. Me fez sentir coisas que o governo ainda não autorizou."
@AmorIlegal (Influenciadores banidos de 3 países)

...

Livro > Tristão e Julieta / Cássio D. Versus / 2017

Frase do Dia com Jim Brown


"I'm not trying to be a role model. I'm trying to be real."
- Jim Brown

23 de jun. de 2025

Algum Tipo de Amor


Eu quero algum tipo de amor
um amor apaixonado
um amor enraizado
um amor retumbante
sem juro nem prazo

que invada a mente e cale o ranger
que beba do meu caos sem me corrigir
que durma vampira e acorde sem perceber
e ria d'um mundo morto só pra me ouvir 

um amor que não peça pedigree
nem CPF, nem promessas de eternidade
que me deseje torto, febril, sem verniz
e me aceite em versão de calamidade

um amor que me olhe quando não valho
que me salgue quando adoço demais
que se embriague do que eu espalho
e nunca se despeça nos temporais

um amor que more na fresta da alma

com bagagem leve e presença profunda


(D. Versus)

22 de jun. de 2025

Kimila Ann Basinger


"Eu digo que, quando a verdade quer te encontrar 
— ou ser encontrada por você — 
ela virá atrás de você. Você não pode parar essa força.”

(Basinger, Kim)

20 de jun. de 2025

Anjo de Má Reputação

 
"Não sou cruel. Ou intencionalmente maldoso.
Sou apenas o reflexo das promessas quebradas que fizeram a si mesmos."

- Versus

19 de jun. de 2025

Voa Quem Pula


Levanta, criatura noturna,
teu corpo é ruína sagrada,
tua cama — um caixão preguiçoso
onde sonhos desintregam-se em nada.

Há um sol que nem sabe teu nome,
mas insiste em nascer pra ti.
E o mundo, esse cão sem vergonha,
ainda lambe teus calcanhares por aí.

Ergue o osso, estala a alma,
desamarra essa vontade vencida.
Não foste feito pra lençol úmido,
mas pra cuspir poesia na ferida.

Deita os olhos, sim, no espelho,
mas não deita mais o corpo inteiro.
Acordar não é dom — é vingança:
existir apesar do cansaço primeiro.

Vai. Um passo. Um grito. Um gole.
Um suspiro já muda o destino.
Porque até a mais preguiçosa estrela
caminha no ventre do céu clandestino.


(D. Versus)