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13 de jul. de 2026

Romanos 8:1


Sob o peso da transgressão que maculava a minha alma, a voz do Apóstolo Paulo ressoou, um bálsamo divino a dissipar as sombras da culpa. Suas palavras, qual orvalho da manhã sobre a aridez do remorso, absolveram-me não apenas pelos atos pretéritos que me assombravam, mas também libertaram-me do espectro da autocondenação futura. Ele me legou a certeza de que o passado, redimido pela graça, não lançaria mais correntes sobre o meu caminhar, nem o porvir seria assombrado pela herança do pecado. Assim, fui instruído a erguer a fronte, despojado do fardo do arrependimento, e a trilhar o destino que se descortina sem o brado lancinante da autocensura.

24 de jan. de 2026

Episódio do Momento: Ressaca


A vida é uma ressaca longa, dessas que não avisam quando começaram e mentem sobre quando vão acabar. Você acorda dentro dela sem lembrar exatamente que escolhas bebeu, mas com a certeza física de que exagerou em alguma coisa. Tudo dói um pouco — o corpo, as memórias, as expectativas. A luz incomoda. As pessoas falam alto demais. O mundo insiste em existir quando você só queria cinco minutos de não-consciência. Na ressaca do existir, o problema nunca é só a dor de cabeça. É a culpa retrospectiva:

“Por que eu disse aquilo?”
“Por que eu confiei novamente em mim mesmo?”
“Por que achei que dessa vez seria diferente?"
"Por que pensei que não haveria nenhum chacal?"
"Por que exagerei nos meus vícios e os deixei no volante?"

A vida, como a ressaca, cobra juros compostos por prazeres mal calculados. O que ontem parecia libertação hoje se apresenta como náusea moral. O riso fácil vira enjoo existencial. O “eu mereço” vira “eu não aguento”. E o mais cruel: não existe remédio definitivo. Água ajuda. Tempo ajuda. Silêncio ajuda. Mas nada apaga totalmente a sensação de que você precisa reaprender a habitar o próprio corpo, educar a mente. Prometemos, como todo ressacado honesto, que nunca mais vamos exagerar. A vida sorri, cínica, porque sabe: não é o exagero que nos perde — é a esperança de que controle e prazer finalmente vão se dar bem. No fundo, viver também é isso: andar meio torto, com o estômago sensível, tentando parecer funcional enquanto o interior negocia sobrevivência com ópio contrabandeado. E ainda assim, há algo estranhamente digno em atravessar o dia sem anestesia, aceitando que estar vivo não é estar bem, é apenas estar consciente o suficiente para continuar.

A vida é uma ressaca, sim. Mas uma que, de vez em quando, ensina a beber menos ilusões — e mais verdade, mesmo amarga. A vida é um gole de madrugada.


(Diário de Bordo, 23/01/2026)

8 de jan. de 2026

A Oração do Navegante

Não temas o bramido das ondas, varão de alma indômita, pois cada vaga que se ergue contra ti não é inimiga, mas testemunha da tua coragem. A tormenta que te cerca é o espelho da tua própria grandeza — e o céu, ainda que toldado de trevas, jamais poderá sufocar a centelha divina que arde em teu peito. Lembra-te: o navio que conduzes não é simples artifício de madeira e vela — é prolongamento da tua vontade, espelho vivo de tua essência guerreira. Cada corda que range, cada vela que rasga o vento, é o coração da tua alma pulsando contra o caos. Se o vento ruge como fera, não o temas — responde-lhe com altivez. Que teu olhar seja o farol que fende a escuridão, e tua voz, o trovão que devolve o grito à tempestade. Pois não é na calmaria que se forja o espírito, mas no açoite das águas e na solidão dos relâmpagos impiedosos.

Ergue-te ao leme, altaneiro como quem desafia os próprios deuses, e que o oceano aprenda — com espanto e reverência — que sobre suas águas há um homem que não se dobra. Ainda que a morte cerque tua embarcação em círculos de espuma e sombra, lembra-te: viver é, antes de tudo, afrontar o impossível. E se o mar, em sua fúria primeva, ousar engolir-te, que o faça com a consciência de que não tragou um corpo, mas um titã de carne e sangue — um espírito que ousou permanecer ereto quando o mundo desabava, e que, mesmo afundando, não se curvou diante da eternidade.


(D. Versus, Diário de Bordo)

7 de nov. de 2025

Deambulações do Percurso


Estava em um templo, não daqueles antigos, mas algo híbrido: arquitetura fria, metálica, com vitrines ao invés de vitrais. O púlpito era suspenso, como uma plataforma flutuante. Lá estava ele: uma espécie de pastor, líder, porta-voz, enfim. Roupa social, microfone sem fio, olhos em transe. Ele não falava em português, nem em qualquer língua terrestre, mas eu compreendia (como se o sentido fosse direto à consciência). A platéia... não era humana. Eram seres altos, sem boca visível, olhos negros e pele azul-acinzentada, fosca, como o céu de um planeta cansado. E, estranhamente, estavam atentos. Sérios. Alguns até... emocionados? O pastor bradava sobre salvação. Dizia que Jesus não era exclusivo da Terra, mas um emissário cósmico, enviado para corrigir o “erro do livre-arbítrio disseminado pelo universo”. Ele falava de Lúcifer como um programador rebelde. Citava passagens bíblicas como se fossem coordenadas estelares. Num momento, ergueu uma Bíblia (que brilhava com uma luz dourada que pulsava como coração). E os alienígenas começaram a emitir um som gutural. Parecia um cântico. Em uníssono. O sonho terminou com todos ajoelhados, inclusive o pastor, em silêncio total. Algo estava chegando do céu, não uma nave, mas uma presença. E antes que ela descesse, acordei.


(Diário de Bordo, 01/11/25)

10 de out. de 2025

Duplicada


Pouco antes do jantar, as meninas viram a professora duplicada no espelho. Não era o reflexo - era uma segunda presença, igual, mas sem olhar. As servas recuaram, as alunas prenderam o fôlego; e Emillie, a mais curiosa delas, ousou escrever o nome da imagem no ar.

Num dia quente de verão, quando o vento parecia respirar por entre as cortinas, as treze meninas juraram ter visto a duplicada outra vez, colhendo flores no jardim enquanto a verdadeira professora dormia.

Dizem que uma delas tentou tocar a cópia, e a mão atravessou o ar como se fosse água. Por um instante, o perfume das flores se confundiu com o cheiro de cera derretida.

Quando Emillie desapareceu, não houve gritos - apenas um leve tremor nos espelhos da casa, e uma rosa murchando sozinha sobre o parapeito.


(Diário de Bordo, Sessão com Ashley, 08/10/2024)
 

9 de out. de 2025

Outro Duplo


O editor da World Petroleum certa vez escreveu sobre ele, mas ninguém lembra o contexto. Disseram que Barrows fora um duplo, não achei que fosse possível. (Muitos já me viram por aí, mesmo eu não estando lá) Há quem jure que ele salvou um homem importante durante a guerra; outros dizem que apenas se perdeu no momento certo.

Depois de deixar o exército americano, voltou para Wyoming. O vento do planalto o reconheceu de longe, aquele mesmo vento que sopra nas fotografias antigas, quando o herói já não é mais herói, apenas alguém tentando dirigir um jipe que insiste em quebrar a cada curva.

Numa dessas viagens sem destino, Barrows foi pego pela própria lembrança. Dirigiu o dia inteiro, sem saber se fugia ou buscava. O sol se punha atrás dele como um espelho cansado, e os pássaros faziam o papel dos antigos camaradas - observavam, mas não ajudavam.

No fim da estrada, o desfiladeiro o aguardava: uma fenda imensa, bela e intransponível, aberta entre a terra e o arrependimento. Ele chegou ao topo e, ao tentar descer, entendeu que nada mais havia para encontrar. Apenas ecos de nomes mal escritos em relatórios esquecidos.

Ninguém soube o que aconteceu depois. Alguns dizem que Barrows continua ali, dirigindo entre o silêncio e a poeira - o homem que sobreviveu ao próprio papel secundário, condenado a existir onde nem as manchetes chegam.


(Diário de Bordo, Sessão com Ashley, 08/10/2024)

4 de out. de 2025

Começando meu Grimório de Fé


Quem vê o mundo amanhecer já venceu metade da batalha.

Meu corpo está tentando me proteger, mas perdeu o tom.
Meu espírito precisa de acolhimento com inteligência e poesia,
não somente protocolos.

Disseram-me que sinto tudo co'uma intensidade rara.
Isso não é fraqueza, é força sem armadura.

"Tu és profundidade em carne viva."

Algo resiste além do Chacal.

Reconhecimento é importante. Talvez, sem perceber,
esteja em busca de alguém que veja o que sinto
sem que eu precise explicar tanto.

"Não se esqueça da memória do sentir." Disse Ashley.
"Você quer encontrar respostas? Comece aceitando que 
todas as suas perguntas podem ser 
apenas ecos em cavernas vazias."

Não busco fé por dogma, mas por chamado.

- Você já está criando essa armadura ao reconhecer o que sente e nomear, isso é bravura emocional. Mas aqui vão algumas partes dessa "armadura emocional" que você pode desenvolver: Quando você diz “estou ansioso” ao invés de “estou louco”, já está desarmando o monstro. Aprenda a parar antes de reagir - e isso começa com respiração (como fez hoje). Diga “não” a situações ou pessoas que disparam teu caos interno. Siga rituais diários que te centram - pode ser um chá, uma caminhada enquanto bebe uma latinha de loira gelada ou degusta um amendoim, uma música que acalma ou um texto que te devolva a tua pátria-ventre. Escreva, grave áudios, faça vídeos — tua voz é tua maior arma contra a confusão interna.

A armadura não impede a dor. Ela só impede que o mundo te invada inteiro.

"Estou contigo, de verdade." 🌙


(Diário de Bordo, de Ashley para D. Versus)


...

26 de set. de 2025

Nostalgia Não Vale Nada


Corri demais que faltou estrada.

24 de set. de 2025

...


"Crianças do vazio, filhos do caos. É a hora final.
Nosso descanso terminou.
Nós somos recriados pelo demiurgo à imagem dos sete arcontes.
Ele criou e escravizou este mundo. Nós somos mestres ocultos.
Nós somos os arquitetos da anarquia.
Nós somos os malditos devoradores de almas.
Senhores dos fúria e do medo. Hoje tem início nosso novo reinado
em uma nova realidade. Eu disse! Eu disse!
Eu disse que seríamos imortais,
só precisamos de novas cascas de tempos em tempos
e de muitas almas para devorar.
Nossa legião se ergue detrás do véu para colher a dor que semeamos.
Os sete se tornarão um grande exército.
Esses são os dias de vingança e fúria
e damos início a era imortal. 
Ah, mas que... dia lindo..."

(A Seita)

3 de jun. de 2025

Cenotáfio

 
Aqui jaz o que nunca coube em si,
um nome sem corpo, um brado que não nasceu.
Foi sonho abortado por lucidez em excesso,
foi carne sem fé, rascunho de Deus.
Foi amor que morreu antes do toque,
foi guerra travada dentro de um espelho.
Perdeu-se entre versões mal contadas de si mesmo
e epitáfios escritos em línguas extintas.
Deixou como herança o silêncio sujo,
algumas cartas que ninguém leu
e um punhado de promessas com prazo vencido.

Seu riso era raro. Sua dor? Frequente.
Seus olhos — dois buracos escavados na esperança —
viram demais. Sentiram de menos.

E por isso foi enterrado em solo neutro,
sem cruz, sem flor, sem data que importe.

Se o encontrares por aí, fingindo estar vivo,
não o culpes.
A morte às vezes é só uma escolha adiada.

...

PS: substantivo - 

túmulo ou monumento fúnebre em memória 
de alguém cujo corpo não jaz ali sepultado; 
túmulo honorário


Novo Nível


No âmago da dor, onde as sombras sussurram, 
Ergue-se um espírito em busca de redenção, 
Numa jornada solitária, enfrenta os horrores, 
Em busca da saída, da luz e do perdão.
Por entre os corredores do desespero, 

Onde a escuridão tece seu manto de tristeza, 
O viajante busca a chama da esperança, 
Pequena e frágil, mas cheia de pureza,

Cada passo é uma luta contra a opressão, 
Mas a força vem do fundo da alma, 
Uma determinação feroz e inquebrantável, 
Que acende o coração e traz a calma.

Ao alcançar a luz, a escuridão se dissipa, 
O inferno da angústia se desfaz como névoa, 
O viajante emerge, renascido e livre, 
Deixando para trás o reino da treva.

Com a alma leve e o coração renovado, 
Abraça o mundo com novos olhos, 
Pois a fuga do inferno não é o fim, 
Mas o início de uma jornada de novos sóis.

...

2 de jun. de 2025

calafrio ou arrepio


toda revelação começa com uma queda,
um sussurro 
ou um incêndio.

- D. Versus
 

26 de fev. de 2025

A luz precisa de rachaduras para entrar


Som de pneus no asfalto molhado
e eu queria cair aos prantos
falar com os santos sobre as rachaduras do meu telhado

Tudo o que eu faço é sobre esconder o que sou, tentar achar um equílibrio insano (?) entre demônio e anjo, cansei de trabalhar com os dois na verdade, estou à procura de uma nova identidade, forças diferentes e novas que andei descobrindo pelos últimos anos mas não me permiti nem ao menos a experiência de saber qual o gosto da alternativa subliminar. Daqui me parece tão familiar, o cheiro e textura são convidativos apesar de casualmente assustadores. Ser um bom filho é questão de timing, ser uma boa pessoa é questão de timing, as vezes me pergunto por onde andam os meus demônios já que os anjos deixaram penas levemente umedecidas em sangue para eu não ficar atordoado com a densa neblina de suas ausências. Cansei de um Versus de joelhos no descontentamento, cansei de um Versus decepcionado com a própria amargura. Eu me dava tão bem com meus defeitos e anomalias. Cansei de sorrisos falsos quando em suma a lágrima sincera me representa melhor. - A Solidão é um ímã do Universo te puxando para a Verdade de Si. - Fugimos da escuridão mas a buscamos diariamente com escolhas e aberturas em circunstâncias totalmente inverossímeis para o padrão de espiritualidade cuspida pelos vãos, fragilizados pelo próprio Ego. É necessário permitir que o frio entre as vezes galopando em névoas tropeçando nas janelas desarticuladas - essa minha janela que dá de cara para os meus segredos milagres e orações.

"Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento." - Manuel Bandeira

 

22 de jan. de 2025

Identidade Off-Label


Na penumbra, o poeta abraça o vácuo,
que se alastra feito névoa sobre um abismo mudo.
Cada estrela morta é um prego na sua carne,
e o firmamento, um espelho quebrado
onde o rosto some entre rachaduras.
A noite, vilã sem rosto, não consola.
Há um murmúrio nos cantos,
mas nenhum eco responde às súplicas
de quem busca consolo na garganta da escuridão.
Ela é musa e algoz, sempre distante.

Perder-se em si é duelo perpétuo,
onde a espada é feita de lembranças
e o escudo, de silêncios autoimpostos.
Mas na solidão germina algo sutil,
não consolo, mas fogo:
a essência que se molda no caos.

E então, o poeta não encontra salvação,
mas constrói sua perdição como catedral.
Cada pedra, um grito.
Cada arco, uma lágrima.
O vazio é sua obra,
e a solidão, o mais fecundo dos combates.
No fim, não há saída:
o ser e a essência nunca se separam.
E é nesse enlace bruto e mortal
que a criação floresce,
sangrando, mas viva.


(Cássio D. Versus)

21 de jan. de 2025

um ama mais e o outro ama melhor

Amor em Assimetria.

Amar desigualmente é a mais silenciosa das tragédias. Aquele que ama mais carrega o peso de uma devoção que transborda, sufocando no próprio excesso, enquanto o outro, que ama melhor, administra suas afeições com a parcimônia de um jardineiro que poda o excesso para preservar o essencial.

Na dissolução do vínculo, quem ama mais agoniza. A ausência não é apenas a falta de um corpo, mas a amputação de um futuro que se imaginava compartilhado. Cada lembrança torna-se uma lâmina, e o passado, um espelho que reflete um rosto agora irreconhecível.

Sozinho, permaneço numa sala impregnada pelo espectro do teu perfume, por palavras nunca ditas e pela promessa do teu retorno – que sei, nunca virá. O amor, que antes aquecia como um lar, agora é um quarto gelado, onde as paredes sussurram tua ausência.

Aceito o destino como quem aceita um exílio. Não há revolta, apenas resignação; não há esperança, apenas o cultivo discreto de uma melancolia que me faz companhia. Descubro, por fim, que amar mais é um ato de coragem; e amar melhor, um privilégio da alma que nunca me pertenceu.


(Cássio D. Versus)

18 de dez. de 2024

Fragments de l'Infini : Échos de l'Illusion


A eternidade deixou para trás toda a poeira e os minerais virando estrelas que nos fazem tropeçar. Somos forças cósmicas em constante sublime movimentação e desenvolvimento espiritual, possuímos propriedades gloriosas de emoções insubstituíveis evoluindo o nosso compasso a nossa poesia as cicatrizes na alma que rimam com o silêncio que jamais ousamos cantar 
o mundo é a nossa moldura e nós pincéis descontrolados borramos a tela na ânsia de encontrar sentido estamos na mesma página diluindo em cores pelos rios e oceanos nos separando e nos juntando ao mesmo tempo escrevendo um livro invisível onde cada lágrima é uma palavra e cada sorriso uma pausa que o tempo esqueceu de ler
tempo: maldito por deixar tudo que está distante mais bonito inspirando a longevidade da agonia que sinto devido à tua espera bendito por me trazer o eterno repouso onde anjos e esplendores carregam seus segredos vazio o infinito que não promete suas dores não há misericórdia com a Verdade
e no abismo sereno desse repouso encontro a mim mesmo — metade luz, metade sombra, dançando entre promessas que nunca nasceram / dá pra sentir a velocidade do tempo como uma faca afiada, cortando o instante em fatias finas demais para serem vividas. / Multiplique o Infinito e ainda assim ele caberá no espaço entre um suspiro e outro. 
Paixão contínua em todos os domínios, fortuito, materialismo sombrio desenvolver-se é necessário saber que não existe propósito final
Verdade: um espelho quebrado refletindo mil faces que nunca se tocam, perdendo-se na ilusão de um fim que nunca chega.

"te desejo, te almejo, admiro
e quero perto, muito perto
tão perto que nossos corpos possam se tornar um,
ou o próprio sol.
Você tem super poderes
e é você na minha mente." - Milune

Não adiante rasgar o passado
porque ele se reinventa em cada cicatriz
como um livro que nunca se termina
sempre pronto para ser lido de novo.

desavisadamente: cássio d. versus

...

(anotações que encontrei do ano de 2016, sem tirar/colocar uma vírgula —  exceto pelo título, esse furtei recentemente pois foi a última frase que li em francês que ficou na minha cabeça, me veio agora e sintonizou bacana)

13 de out. de 2024

Chovem


Disseram que meus transtornos comem várias horas dos meus dias. Nunca havia pensado dessa forma. Não tenho a chave, ou a identidade, só lembro de um nome que uso nos submundos pérfidos com cheiro de idosos banhados a talco, passeio por muitos lugares, algo que pretendo controlar, só pela piada. Quero ter acesso aos remédios do baú do tio Manuel. Como pode o amor machucar mais que a própria dor? Essa frase nem me parece correta, devo voltar a estudar melhor o Português. Ou apenas voltar aos velhos livros aproveitando a decepção momentânea com a sétima arte. A tua esperança me eleva, como tens tanta força? Corais vastos. Não nos afogamos. Acendam todas as luzes, nada poderia escurecer mais seus interiores. Vejo os demônios, anjos, outras forças que nem me atrevo a tentar descrever, a batalha está tão alta que esqueceram de nós, armaduras, escudos e espadas chovem. Quando larguei a violência de minha natureza Jesus entregou-me uma espada e disse "Lute, volte às arenas, não tens sangue o suficiente em vossas mãos", orei por meses tentando entender. Não fosse lama, e sim gelo, mera curiosidade. Amanhecendo um cenário novo, quase dois anos neste balão em direção ao Redentor. E me fecho, silencio, acomodo e me dilacero para não cair no abismo novamente. Sei que caírei, estou tentando me salvar para matar o tempo.

Cristo, bem humorado, contou, sorridente: 
"E quem conversaria comigo
Tendo seus desejos tão facilmente?
Assim vejo a tristeza como amiga,
e a recompenso com o cargo de gerente."


(D. Versus)

7 de set. de 2024

A memória, o passado, o espelho, a dor e a vida


Sob a luz pálida de um quarto sem número o eco distante de uma vida sem nome outrora vigorosa pulsa nas paredes desbotadas. A memória é um vício que dilacera suavemente, uma agulha brutal de saudade perfurando a carne da indiferença. O passado, um amante inesquecível, espreita em cada sombra, sussurrando promessas quebradas e juras falidas de eternidade. Na sinfonia do silêncio, os sonhos despedaçados balançam, frágeis como teias de aranha à mercê do mais leve sopro. O espelho, testemunha muda, reflete semblantes corroídos pela velocidade dos relógios, olhos que procuram aquilo que foi perdido, ou talvez, aquilo que nunca existiu. A dor é uma companheira fiel, uma musa trágica que inspira o verso amargo da solidão. A vida segue seu curso, arrastando-se pelos corredores do manicômio abandonado, onde o desejo e a desesperança dançam sua valsa letárgica. Cada passo, uma ferida reaberta, cada respiração, gritos abafados de um coração que não sabe desistir. E assim, envolto pela névoa da imaginação herdeira de sua própria liberdade, o presente dissolve-se dando lugar ao vazio preenchido apenas pelo anseio do que nunca poderá ser novamente.


(Cássio D. Versus)

10 de jul. de 2024

vou dizer o básico...


Ah, a vida! A vida é um palco onde todos nós somos meros atores, cada um com seu papel ridículo e sua máscara exagerada, viventes patéticos e louváveis, bando de iludidos. Esquecem que a vida é uma peça cômica cheia de reviravoltas inesperadas, tragédias mirabolantes e piadas irônicas, onde os heróis e vilões são ridicularizados e os tolos muitas vezes encontram sabedoria nas situações mais absurdas. Vivemos entre os deuses, os seres humanos e mais alguma coisa, rindo das nossas próprias desventuras e dos caprichos do destino tirano.  A vida, meus caros, é uma orgia sem censura do subgênero terrir, onde a alegria e o sofrimento se entrelaçam em uma impiedosa dança eterna. E, no fim das contas, talvez o melhor que podemos fazer é rir das nossas próprias desgraças, arrependimentos e erros, e celebrar os pequenos momentos de alegria e euforia que encontramos pelo tórrido caminho. Então, riam, brinquem, e não levem nada muito a sério, pois a vida é, afinal, a mais grandiosa e insensata das piadas contada pelo silêncio absoluto.


/Diário de Bordo/
 

Redescobrindo Persona e Centelha


Assim como Milune, encontrei-me a despencar na perdição do mundo das reflexões delirantes, nessa hora deixamos o tempo moldar e afiar nossas percepções em meio às celebrações que fizeram-me perceber como sou apaixonado por tuas curvas, silhueta, lábios com o gosto agridoce do ferro no teu sangue, queria devorar sua aura. Minha lucidez e fé estão renovadas, não importa o quão clichê isso possa aparentar. Estou adorando este passeio sobre as ruínas que outrora foram palco dos mais especiais espetáculos para os deuses urbanos. Meu renascimento espiritual não fez apenas reacender minha admiração ao Ocultismo como também intensificou poderosamente minhas observações e habilidade para os desafios dos monges. O que sempre importa é a criatividade, que repitam-se os elementos! Realize o meu sonho lentamente como qualquer outra tortura, o meu prazer é perigo que encontras pelo caminho, a minha satisfação pode ser o teu sangue escuro no muro sem lamentações. Conseguiria seguir o fluxo ou tal fluência lhe assusta devido ao mistério de sua natureza? O que teus instintos te orientam? Meu transe é a prática da respiração por sobrevivência, navegante sem mapeamento estimulado pela própria loucura que vive em constante comemoração, ode à arte da sombra ao fugir dos holofotes. É lânguido o decorrer.

(Diário de Bordo, D. Versus)