Você me transformou em uma canção escura.
E eu a ouvi.
Ouvi cada palavra em que me amava como se eu fosse uma aurora e cada verso em que me condenava como se eu tivesse apagado o sol. Mas preciso lhe contar algo que você nunca enxergou. Eu não fui embora para feri-la. Não encontrei outro sorriso para substituir o seu. Não acordei certa manhã e decidi levar comigo a parte mais bonita da sua alma. Eu apenas continuei existindo. E às vezes continuar existindo é o crime que os corações partidos não perdoam.
Você me observa através das ruínas do que fomos e me vê caminhando sob céus azuis, rodeado por uma felicidade que imagina perfeita. Mas você não vê as minhas madrugadas. Não vê os fantasmas que também me visitam. Não vê as conversas que ainda tenho com a sua ausência. Você sente falta de quem eu era. Eu também. A diferença é que você transformou essa saudade em altar, enquanto eu a transformei em cicatriz.
Você diz que a sua vida se tornou negra.
Mas eu nunca quis ser a sua luz.
Nenhum ser humano deveria carregar tamanha responsabilidade.
Eu queria apenas ser alguém que segurasse sua mão durante um trecho da estrada. Não o caminho inteiro. Não o destino. Apenas um trecho. E se hoje sorrio para outro rosto, não é porque o seu não foi suficiente. É porque o tempo continua seu trabalho silencioso de mover continentes dentro de nós. Você me ama na lembrança.
Mas o homem que você ama já não existe. Assim como a mulher que me amou naquela cidade, sob aquele céu, também desapareceu. Restaram duas sombras chamando uma à outra através dos anos. Então não me glorifique. Não me julgue. Não me transforme em anjo nem em traídor. Eu fui apenas humano. E talvez essa seja a tragédia que sua canção nunca conseguiu aceitar. Que às vezes o amor acaba. Não porque foi pequeno. Mas porque foi real.
De Cássio D. Versus Para Yasmin I.