6 de mar. de 2026

A cidade não dorme

A cidade não dorme.
Ela desmaia em pé,
com um olho aberto
e outro vigiando o fracasso.

Os prédios crescem
como quem quer fugir do chão,
mas continuam presos
à própria fundação podre.
Altos demais para rezar,
baixos demais para sonhar.

As ruas mastigam passos.
Cospem pressa.
Engolem nomes.
Ninguém se chama —
todo mundo se empurra.

Há um homem vendendo esperança
no sinal fechado.
Aceita moedas,
não aceita perguntas.
Do outro lado,
alguém compra silêncio
em prestações intermináveis.

O amor aqui anda armado.
Usa sarcasmo como colete
e chama desistência de maturidade.
Beijos são rápidos,
como furtos emocionais
antes que alguém perceba.

A noite acende suas luzes
para fingir alegria.
O neon pisca
como um coração em arritmia,
e cada bar é um confessionário
sem absolvição.

Eu caminho anônimo,
um erro estatístico na multidão,
pensando se a solidão
é minha
ou só mais um serviço urbano
disponível vinte e quatro horas.

No fim, a cidade amanhece
lavada de promessas
que ninguém fez.
E seguimos —
vivos, funcionais,

ligeiramente quebrados
como manda o código postal.



(D. Versus)

Sob o Conluio da Lua


Entre as raízes da noite, quando o silêncio se perfuma de orvalho e segredo, a floresta desperta em murmúrios antigos. O vento, cúmplice dos deuses esquecidos, sopra nomes que já não se pronunciam. E então — sob o olhar pálido da lua — elas surgem.

As filhas do éter, vestidas de bruma e saudade, giram em círculo, como se o próprio tempo lhes obedecesse. Suas vestes, feitas de aurora atrasada, tremulam como preces líquidas. Seus risos não soam: ressoam — vibram nas pétalas, no musgo, nas águas imóveis do lago, onde o reflexo lunar observa com fascínio e ciúme.

Há algo de rito e de condena em cada passo; algo entre o êxtase e o exílio. Pois dançam não apenas por alegria, mas por memória — lembram, com seus corpos, o pacto antigo entre a terra e o céu, entre o efêmero e o eterno.

A noite as envolve como um altar, e a lua, soberana e gótica, derrama sua luz como bênção e sentença. E assim seguem — órbitas humanas de um cosmos encantado — até que o primeiro raio do sol, sempre invasor, venha profanar o milagre.

Então, uma a uma, desvanecem no hálito das folhas.
Mas o ar… o ar ainda dança.


(D. Versus)

4 de fev. de 2026

A Casa Tímida do Espanto



















Há uma casa em mim
onde o espanto entra de mansinho,
tira os sapatos,
e senta no canto como quem pede desculpas
por existir.

As paredes suam memórias,
o relógio acusa atrasos que nunca cometi,
e a culpa —
essa governanta severa —
aponta o dedo até quando durmo.

Na cozinha, a solidão ferve em fogo baixo,
enquanto Deus observa da janela,
indeciso entre descer as escadas
ou fingir que não ouviu o barulho.

A vida bate à porta com pressa,
a morte passa pela calçada
assoviando distraída,
como quem diz:
“não é hoje, mas ensaia”.

Depressão mora no quarto dos fundos,
organizada, metódica,
pendura meus nomes antigos no armário
e chama isso de identidade.

Ainda assim,
há algo —
um fio elétrico, quase invisível —
que me impede de fechar a casa por dentro.

Talvez seja esperança,
talvez só teimosia metafísica,
ou esse estranho amor
por continuar respirando
mesmo quando o ar parece suspeito.

A casa é tímida,
mas não vazia.
O espanto assusta,
mas também acorda.

E eu sigo morando aqui,
entre o colapso e o milagre,
aprendendo, aos poucos,

a não pedir desculpas
por ainda estar.



(D. Versus)

3 de fev. de 2026

Equus Ferrum



Sou Cavalo,
mas não desses que correm por instinto.
Sou feito de Metal —
aprendi cedo que liberdade também pesa.

Carrego nas veias
o impulso do horizonte
e nas mãos
a precisão de quem mede o passo
antes de pisar no abismo.

Hoje não corro.
Hoje alinho.

Escuto o chão,
porque até o aço precisa saber
onde se apoia
para não virar arma contra si.

O mundo me provoca pressa,
mas eu respondo com direção.
Nem todo avanço é movimento.
Às vezes, é postura.

Se avanço, é porque escolhi.
Se paro, é porque posso.

Sou Cavalo de Metal:
força que não se exibe,
liberdade que não se explica,
silêncio que sustenta o impacto.

E sigo —
não para fugir,
mas para permanecer inteiro
no próximo passo.


(D. Versus)

24 de jan. de 2026

Episódio do Momento: Ressaca


A vida é uma ressaca longa, dessas que não avisam quando começaram e mentem sobre quando vão acabar. Você acorda dentro dela sem lembrar exatamente que escolhas bebeu, mas com a certeza física de que exagerou em alguma coisa. Tudo dói um pouco — o corpo, as memórias, as expectativas. A luz incomoda. As pessoas falam alto demais. O mundo insiste em existir quando você só queria cinco minutos de não-consciência. Na ressaca do existir, o problema nunca é só a dor de cabeça. É a culpa retrospectiva:

“Por que eu disse aquilo?”
“Por que eu confiei novamente em mim mesmo?”
“Por que achei que dessa vez seria diferente?"
"Por que pensei que não haveria nenhum chacal?"
"Por que exagerei nos meus vícios e os deixei no volante?"

A vida, como a ressaca, cobra juros compostos por prazeres mal calculados. O que ontem parecia libertação hoje se apresenta como náusea moral. O riso fácil vira enjoo existencial. O “eu mereço” vira “eu não aguento”. E o mais cruel: não existe remédio definitivo. Água ajuda. Tempo ajuda. Silêncio ajuda. Mas nada apaga totalmente a sensação de que você precisa reaprender a habitar o próprio corpo, educar a mente. Prometemos, como todo ressacado honesto, que nunca mais vamos exagerar. A vida sorri, cínica, porque sabe: não é o exagero que nos perde — é a esperança de que controle e prazer finalmente vão se dar bem. No fundo, viver também é isso: andar meio torto, com o estômago sensível, tentando parecer funcional enquanto o interior negocia sobrevivência com ópio contrabandeado. E ainda assim, há algo estranhamente digno em atravessar o dia sem anestesia, aceitando que estar vivo não é estar bem, é apenas estar consciente o suficiente para continuar.

A vida é uma ressaca, sim. Mas uma que, de vez em quando, ensina a beber menos ilusões — e mais verdade, mesmo amarga. A vida é um gole de madrugada.


(Diário de Bordo, 23/01/2026)

21 de jan. de 2026

OVO


Se presto para
alguma coisa,
perdoem-me.
Meu objetivo
era a perfeição.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

ASTÚCIA


Quem sabe,
não sabe.
Eu, que sei,
não digo
a ninguém.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

TITÃ DE PORRE


Comi a lua.
Esta que ilumina a minha loucura
é a lua nova
que aluguei
para beber este conhaque.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

CLARO DRUMMOND DE ANDRADE


Curioso: as rosas são tão evidentes
e há quem só enxergue espinhos..
Difícil é o enigma
que não queremos decifrar.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

19 de jan. de 2026

LEMBRANÇA


Se alguém perguntar por mim,
diga que volto já, 
Se não voltar,
vá ao jardim.
Serei terra, cajá e jasmin.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

CONSTATAÇÃO


Tenho a impressão
de que já me conheci.
Nada claro, troço nublado.
Mas teve um tempo
em que me olhei
e vi.
Esqueci.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

17 de jan. de 2026

IMPRESSÃO


Tudo é muito bobo
e humano.
Eu também,
bobo e humano,
se não me engano.


(Fausto Wolff)

INFORMAÇÃO


Quando eu ficar rico
não digam nada a ninguém.
Nem a mim
que pobrefico.


(Fausto Wolff)