A cidade não dorme.
Ela desmaia em pé,
com um olho aberto
e outro vigiando o fracasso.
Os prédios crescem
como quem quer fugir do chão,
mas continuam presos
à própria fundação podre.
Altos demais para rezar,
baixos demais para sonhar.
As ruas mastigam passos.
Cospem pressa.
Engolem nomes.
Ninguém se chama —
todo mundo se empurra.
Há um homem vendendo esperança
no sinal fechado.
Aceita moedas,
não aceita perguntas.
Do outro lado,
alguém compra silêncio
em prestações intermináveis.
O amor aqui anda armado.
Usa sarcasmo como colete
e chama desistência de maturidade.
Beijos são rápidos,
como furtos emocionais
antes que alguém perceba.
A noite acende suas luzes
para fingir alegria.
O neon pisca
como um coração em arritmia,
e cada bar é um confessionário
sem absolvição.
Eu caminho anônimo,
um erro estatístico na multidão,
pensando se a solidão
é minha
ou só mais um serviço urbano
disponível vinte e quatro horas.
No fim, a cidade amanhece
lavada de promessas
que ninguém fez.
E seguimos —
vivos, funcionais,

