4 de fev. de 2026

A Casa Tímida do Espanto



















Há uma casa em mim
onde o espanto entra de mansinho,
tira os sapatos,
e senta no canto como quem pede desculpas
por existir.

As paredes suam memórias,
o relógio acusa atrasos que nunca cometi,
e a culpa —
essa governanta severa —
aponta o dedo até quando durmo.

Na cozinha, a solidão ferve em fogo baixo,
enquanto Deus observa da janela,
indeciso entre descer as escadas
ou fingir que não ouviu o barulho.

A vida bate à porta com pressa,
a morte passa pela calçada
assoviando distraída,
como quem diz:
“não é hoje, mas ensaia”.

Depressão mora no quarto dos fundos,
organizada, metódica,
pendura meus nomes antigos no armário
e chama isso de identidade.

Ainda assim,
há algo —
um fio elétrico, quase invisível —
que me impede de fechar a casa por dentro.

Talvez seja esperança,
talvez só teimosia metafísica,
ou esse estranho amor
por continuar respirando
mesmo quando o ar parece suspeito.

A casa é tímida,
mas não vazia.
O espanto assusta,
mas também acorda.

E eu sigo morando aqui,
entre o colapso e o milagre,
aprendendo, aos poucos,
a não pedir desculpas

por ainda estar.


(D. Versus)

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