tira os sapatos,
e senta no canto como quem pede desculpas
por existir.
As paredes suam memórias,
o relógio acusa atrasos que nunca cometi,
e a culpa —
essa governanta severa —
aponta o dedo até quando durmo.
Na cozinha, a solidão ferve em fogo baixo,
enquanto Deus observa da janela,
indeciso entre descer as escadas
ou fingir que não ouviu o barulho.
A vida bate à porta com pressa,
a morte passa pela calçada
assoviando distraída,
como quem diz:
“não é hoje, mas ensaia”.
Depressão mora no quarto dos fundos,
organizada, metódica,
pendura meus nomes antigos no armário
e chama isso de identidade.
Ainda assim,
há algo —
um fio elétrico, quase invisível —
que me impede de fechar a casa por dentro.
Talvez seja esperança,
talvez só teimosia metafísica,
ou esse estranho amor
por continuar respirando
mesmo quando o ar parece suspeito.
A casa é tímida,
mas não vazia.
O espanto assusta,
mas também acorda.
E eu sigo morando aqui,
entre o colapso e o milagre,
aprendendo, aos poucos,
a não pedir desculpas

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