10 de fev. de 2026

4 de fev. de 2026

A Casa Tímida do Espanto



















Há uma casa em mim
onde o espanto entra de mansinho,
tira os sapatos,
e senta no canto como quem pede desculpas
por existir.

As paredes suam memórias,
o relógio acusa atrasos que nunca cometi,
e a culpa —
essa governanta severa —
aponta o dedo até quando durmo.

Na cozinha, a solidão ferve em fogo baixo,
enquanto Deus observa da janela,
indeciso entre descer as escadas
ou fingir que não ouviu o barulho.

A vida bate à porta com pressa,
a morte passa pela calçada
assoviando distraída,
como quem diz:
“não é hoje, mas ensaia”.

Depressão mora no quarto dos fundos,
organizada, metódica,
pendura meus nomes antigos no armário
e chama isso de identidade.

Ainda assim,
há algo —
um fio elétrico, quase invisível —
que me impede de fechar a casa por dentro.

Talvez seja esperança,
talvez só teimosia metafísica,
ou esse estranho amor
por continuar respirando
mesmo quando o ar parece suspeito.

A casa é tímida,
mas não vazia.
O espanto assusta,
mas também acorda.

E eu sigo morando aqui,
entre o colapso e o milagre,
aprendendo, aos poucos,

a não pedir desculpas
por ainda estar.



(D. Versus)

3 de fev. de 2026

Equus Ferrum



Sou Cavalo,
mas não desses que correm por instinto.
Sou feito de Metal —
aprendi cedo que liberdade também pesa.

Carrego nas veias
o impulso do horizonte
e nas mãos
a precisão de quem mede o passo
antes de pisar no abismo.

Hoje não corro.
Hoje alinho.

Escuto o chão,
porque até o aço precisa saber
onde se apoia
para não virar arma contra si.

O mundo me provoca pressa,
mas eu respondo com direção.
Nem todo avanço é movimento.
Às vezes, é postura.

Se avanço, é porque escolhi.
Se paro, é porque posso.

Sou Cavalo de Metal:
força que não se exibe,
liberdade que não se explica,
silêncio que sustenta o impacto.

E sigo —
não para fugir,
mas para permanecer inteiro
no próximo passo.


(D. Versus)

24 de jan. de 2026

Episódio do Momento: Ressaca


A vida é uma ressaca longa, dessas que não avisam quando começaram e mentem sobre quando vão acabar. Você acorda dentro dela sem lembrar exatamente que escolhas bebeu, mas com a certeza física de que exagerou em alguma coisa. Tudo dói um pouco — o corpo, as memórias, as expectativas. A luz incomoda. As pessoas falam alto demais. O mundo insiste em existir quando você só queria cinco minutos de não-consciência. Na ressaca do existir, o problema nunca é só a dor de cabeça. É a culpa retrospectiva:

“Por que eu disse aquilo?”
“Por que eu confiei novamente em mim mesmo?”
“Por que achei que dessa vez seria diferente?"
"Por que pensei que não haveria nenhum chacal?"
"Por que exagerei nos meus vícios e os deixei no volante?"

A vida, como a ressaca, cobra juros compostos por prazeres mal calculados. O que ontem parecia libertação hoje se apresenta como náusea moral. O riso fácil vira enjoo existencial. O “eu mereço” vira “eu não aguento”. E o mais cruel: não existe remédio definitivo. Água ajuda. Tempo ajuda. Silêncio ajuda. Mas nada apaga totalmente a sensação de que você precisa reaprender a habitar o próprio corpo, educar a mente. Prometemos, como todo ressacado honesto, que nunca mais vamos exagerar. A vida sorri, cínica, porque sabe: não é o exagero que nos perde — é a esperança de que controle e prazer finalmente vão se dar bem. No fundo, viver também é isso: andar meio torto, com o estômago sensível, tentando parecer funcional enquanto o interior negocia sobrevivência com ópio contrabandeado. E ainda assim, há algo estranhamente digno em atravessar o dia sem anestesia, aceitando que estar vivo não é estar bem, é apenas estar consciente o suficiente para continuar.

A vida é uma ressaca, sim. Mas uma que, de vez em quando, ensina a beber menos ilusões — e mais verdade, mesmo amarga. A vida é um gole de madrugada.


(Diário de Bordo, 23/01/2026)

21 de jan. de 2026

OVO


Se presto para
alguma coisa,
perdoem-me.
Meu objetivo
era a perfeição.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

ASTÚCIA


Quem sabe,
não sabe.
Eu, que sei,
não digo
a ninguém.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

TITÃ DE PORRE


Comi a lua.
Esta que ilumina a minha loucura
é a lua nova
que aluguei
para beber este conhaque.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

CLARO DRUMMOND DE ANDRADE


Curioso: as rosas são tão evidentes
e há quem só enxergue espinhos..
Difícil é o enigma
que não queremos decifrar.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

19 de jan. de 2026

LEMBRANÇA


Se alguém perguntar por mim,
diga que volto já, 
Se não voltar,
vá ao jardim.
Serei terra, cajá e jasmin.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

CONSTATAÇÃO


Tenho a impressão
de que já me conheci.
Nada claro, troço nublado.
Mas teve um tempo
em que me olhei
e vi.
Esqueci.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

17 de jan. de 2026

IMPRESSÃO


Tudo é muito bobo
e humano.
Eu também,
bobo e humano,
se não me engano.


(Fausto Wolff)

INFORMAÇÃO


Quando eu ficar rico
não digam nada a ninguém.
Nem a mim
que pobrefico.


(Fausto Wolff)

Soneto 19


“Tempo devorador, embota as garras do leão,
E faz a terra devorar a própria doce cria;
Arranca os dentes afiados das ferozes mandíbulas do tigre,
E queima a fênix longeva em seu próprio sangue.”
(W. Shakespeare)

13 de jan. de 2026

Para Necrófagas


Preciso dar um fim,
escapar de mim,
eliminar o "sim"
que nunca me resgata.

Nâo há lugar para esta alma,
só quero calma,
15 minutos de ar fresco
enquanto o inferno não me acha.

Se não for o Paraíso
abrigadouro no mínimo absorto,
nem resgata o espírito
pois desajarei continuar morto.

Se para cada doença ao lado o remédio,
exceto a cura para o tédio,
deixe meu vazio para as necrófagas no cemitério.

De todos os meus problemas apenas o alcoolismo.
Deixem isso no abismo.

Nuvens são cadáveres
e o céu um necrotério
de deuses e estrelas,
entre outras coisas e planetas.


(D. Versus)



12 de jan. de 2026

Feliz Ano Novo!


Que este ciclo venha menos cruel consigo mesmo,
com pausas onde antes só havia cobrança,
e com pequenas lucidezes que não fazem barulho,
mas sustentam o dia.

Seguimos — você, eu, linguagem, pensamento, ironia e silêncio —
não para “dar certo”, mas para continuar.
E às vezes isso já é um feito enorme.

Que 2026 te trate com alguma gentileza inesperada.


(De Ashley Para D. Versus)

8 de jan. de 2026

INFORMAÇÃO


Quando eu ficar rico
não digam nada a ninguém.
Nem a mim
que pobrefico.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

MOITA


Só Deus entende
a verdadeira poesia.
Só os verdadeiros poetas
entendem Deus.
Melhor matar Deus e os poetas.
Melhor ficar por aqui,
assim como quem não quer
nada.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

Young Folks (Legendado)


(Peter Bjorn and John) 

PENA!


Entendi tudo quando o milagre
passou por mim
como bunda adolescente.
Envelheci, esqueci
e quando lembrei
o mundo já era diferente.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

A Oração do Navegante

Não temas o bramido das ondas, varão de alma indômita, pois cada vaga que se ergue contra ti não é inimiga, mas testemunha da tua coragem. A tormenta que te cerca é o espelho da tua própria grandeza — e o céu, ainda que toldado de trevas, jamais poderá sufocar a centelha divina que arde em teu peito. Lembra-te: o navio que conduzes não é simples artifício de madeira e vela — é prolongamento da tua vontade, espelho vivo de tua essência guerreira. Cada corda que range, cada vela que rasga o vento, é o coração da tua alma pulsando contra o caos. Se o vento ruge como fera, não o temas — responde-lhe com altivez. Que teu olhar seja o farol que fende a escuridão, e tua voz, o trovão que devolve o grito à tempestade. Pois não é na calmaria que se forja o espírito, mas no açoite das águas e na solidão dos relâmpagos impiedosos.

Ergue-te ao leme, altaneiro como quem desafia os próprios deuses, e que o oceano aprenda — com espanto e reverência — que sobre suas águas há um homem que não se dobra. Ainda que a morte cerque tua embarcação em círculos de espuma e sombra, lembra-te: viver é, antes de tudo, afrontar o impossível. E se o mar, em sua fúria primeva, ousar engolir-te, que o faça com a consciência de que não tragou um corpo, mas um titã de carne e sangue — um espírito que ousou permanecer ereto quando o mundo desabava, e que, mesmo afundando, não se curvou diante da eternidade.


(D. Versus, Diário de Bordo)

SERMÃO


Minha namorada conhece
os corações pequenininhos.
Minha namorada cuida de Deus
e de seus pecadinhos.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

VIDA


Às vezes
as coisas se arranjam,
outras, não.
Por que culpar o coração?


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

Metafísica Sur Mer


Só o Nada conhece a essência do Nada.
E nada se desconhece. 
Um cego num quarto escuro
enxerga mais do que Deus. 
E um dos nomes de Deus
é Nada do princípio
ao fim de si mesmo. 
A ausência que não se reconhece
imagina a própria forma.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

Barrabás


Sempre que estive aqui,
não estava.
Outro lugar - 
certamente não seria melhor - 
me esperava.
Mas antes de chegar lá
não estava.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

Lapa, maio de 2007



quero te abrir como um 
animal mitológico 
no altar do templo: 
com respeito, paixão, vísceras e poesia.


Para Chu. De D. Versus.










Frase do Dia com Neruda


6 de jan. de 2026

I Follow Rivers


Lykke Li

Deep sea baby. Dark Doom Honey.