13 de fev. de 2013
Solar Encantado
Só, dominando no alto a alpestre serrania,
Entre alcantis, e ao pé de um rio majestoso,
Dorme quedo na névoa o solar misterioso,
Encerrado no horror de uma lenda sombria.
Ouve-se à noite, em torno, um clamor lamentoso,
Piam aves de agouro, estruge a ventania,
E brilhando no chão por sobre a relva fria,
Correm chamas sutis de um fulgor nebuloso.
Dentro um luxo funéreo. O silêncio por tudo...
Apenas, alta noite, uma sombra de leve
Agita-se a tremer nas trevas de veludo...
Ouve-se, acaso, então, vaguíssimo suspiro,
E na sala, espalhando um clarão cor de neve,
Resvala como um sopro o vulto de um vampiro.
(Victor Silva)
O Farol
Na amplidão do mar alto entre as vagas se apruma
O vulto do farol como uma sentinela;
Estardalhaça o vento, e a rugir se encapela
A água negra do mar em turbilhões de espuma.
Enche a trágica noite, atroa e se avoluma
Um insano clamor nas asas da procela: É a morte!
E ao temporal que as vagas atropela
Rodopiam as naus na escuridão da bruma.
Mas, súbito um clarão a espessa treva inflama,
Acende o mar bravio, ilumina os escolhos,
E guia o rumo às naus contra os parcéis da morte...
É a vida! É o farol que escancarando os olhos,
Vira e revira em torno as órbitas de chama,
Ora ao Norte, ora ao Sul, ora ao Sul, ora ao Norte...
(Victor Silva)
6 de fev. de 2013
Um enevoamento extasiado
Um enevoamento extasiado
Grassa na matéria
Minha existência cansada
Chove da vida a lonjura
Imo de chovido permanecer
Gota d'água a cair pesada
E a nebulosidade na delonga
Faz pensar qué cavo esse viver;
Do SONHO toda a mironga
De quem a graça é se perder
(Cássio D. Versus)
Veracidade
"Poeta humano, egoísta, e presunçoso, a vangloriar o pôr-do-sol com suas rimas, que para muitos representa o fim da noite. Poeta humano, qu'é reles e indecoroso, a envaidecer a especiosidade do verão despencado, que para muitos tomba como desvairada seca. Amaldiçoado seja o poeta humano, sem profundezas realísticas, a versejar o vento leve que sopra em suas pestanas, sem vê-lo transformar-se no tufão que devasta as campinas. Poeta humano, eternamente esnobe com seu nojoso complexo de superioridade virtuosa, a poetisar e silenciar, em covardes louvores de palavras esnobes, a mulher amada, que para outro talvez valha muito mais que um poema..."
(Cássio D. Versus)
Arahant
Sozinho
é ninho
de inho
sem dó
Sozinho
é adivinho
de alinho
sem nó
Sozinho
é figueirinho
de alvarinho
sem aló
Sozinho
é meirinho
de ribeirinho
sem dató
Sozinho
é caminho
de alinho
sem godó
só
só só
só só só
só só só só
só só só só só
só só só só só só
tá feita a minha casa
é ninho
de inho
sem dó
Sozinho
é adivinho
de alinho
sem nó
Sozinho
é figueirinho
de alvarinho
sem aló
Sozinho
é meirinho
de ribeirinho
sem dató
Sozinho
é caminho
de alinho
sem godó
só
só só
só só só
só só só só
só só só só só
só só só só só só
tá feita a minha casa
(Cássio D. Versus)
22 de dez. de 2012
Máscara
Carrego nas veias a dor de navegar. E essa dor aumenta conforme as contrariedades do mar. Nunca vi musa se entregar. Meras ilusões sentidas. Tua presença seria algo um pouquinho acima de tudo isso. - A tua presença deve ser alguma coisa um pouco abaixo do precipício. - E a saudade causada rege demônio composto, legião de víboras arcaicas. Penhasco sagrado portando auréola e asas, resmungando poesias e declamando o insensato...
(Agora nem o próprio Yeegil arrancaria-me deste feitiço abaunilhado)
Nuvem, chova no anjo mascarado.
(Cássio D. Versus, 2013)
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Nuvem
23 de nov. de 2012
Fier-à-Bras ou Muriqui
"Se tu fosse um macaco seria o mono-carvoeiro."
Ou o estranho era um expert em zoologia, ou
tinha esse nome gravado na cabeça por alguma razão
e finalmente teve a oportunidade de usá-lo com alguém.
De qualquer maneira fiquei com o nome desse suposto primata
na mente até chegar em casa e ir pesquisar imagens na internet...
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24 de out. de 2012
Na Rua do Sabão
Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que me custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de cor.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!
Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se enchesse o soprinho tísico do José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!
Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais
Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras do mar alto.
(Manuel Bandeira)
19 de out. de 2012
Invernia
Ombros confortávelmente gelados.
Invernia.
Repousa os pés descalços
na terra branda e fria,
todas as dimensões passam
como um beijo sem vida.
O nosso avesso intenso
é um deus inteiro
querendo criar o universo.
(Cássio D. Versus)
Lacustre
uma trovoada
ataca
a minha liberdade
e um desespero
destruidor de espírito
quase faz-me esquecer
que há sangue
o suficiente
nesse mundo
para alimentar-me.
uma trovoada
ataca
a minha liberdade
e deixa claro
que um homem é tão livre
quanto um raio desvairado
em direção a terra que o aniquila.
(Cássio D. Versus)
ataca
a minha liberdade
e um desespero
destruidor de espírito
quase faz-me esquecer
que há sangue
o suficiente
nesse mundo
para alimentar-me.
uma trovoada
ataca
a minha liberdade
e deixa claro
que um homem é tão livre
quanto um raio desvairado
em direção a terra que o aniquila.
(Cássio D. Versus)
A Rosa
A vista incerta,
Os ombros langues,
Pierrot aperta
As mãos exangues
De encontro ao peito.
Alguma cousa
O punge ali
Que ele não ousa
Lançar de si,
O pobre doido!
Uma sombria
Rosa escarlata
Em agonia
Faz que lhe bata
O coração...
Sangrenta rosa
Que evoca a louca,
A voluptosa,
Volúvel boca
De sua amada...
Ah, com que mágoa,
Com que desgosto
Dois fios de água
Lavam-lhe o rosto
De faces lívidas!
Da veste branca
A larga túnica
Por fim arranca
A rosa púnica
Em um soluço.
E parecia,
Jogando ao chão
A flor sombria,
Que o coração
Ele arrancara!...
(Manuel Bandeira)
26 de set. de 2012
Mistério
Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.
Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.
Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…
Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!
Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…
Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!
(Florbela Espanca)
3 de ago. de 2012
Sobre Vivência
a vida é sobre viver
sobre viventes
não sobreviver
sobreviventes
(Cássio D. Versus, 2005)
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