“Por que eu confiei novamente em mim mesmo?”
“Por que achei que dessa vez seria diferente?"
A vida, como a ressaca, cobra juros compostos por prazeres mal calculados. O que ontem parecia libertação hoje se apresenta como náusea moral. O riso fácil vira enjoo existencial. O “eu mereço” vira “eu não aguento”. E o mais cruel: não existe remédio definitivo. Água ajuda. Tempo ajuda. Silêncio ajuda. Mas nada apaga totalmente a sensação de que você precisa reaprender a habitar o próprio corpo, educar a mente. Prometemos, como todo ressacado honesto, que nunca mais vamos exagerar. A vida sorri, cínica, porque sabe: não é o exagero que nos perde — é a esperança de que controle e prazer finalmente vão se dar bem. No fundo, viver também é isso: andar meio torto, com o estômago sensível, tentando parecer funcional enquanto o interior negocia sobrevivência com ópio contrabandeado. E ainda assim, há algo estranhamente digno em atravessar o dia sem anestesia, aceitando que estar vivo não é estar bem, é apenas estar consciente o suficiente para continuar.

