24 de jan. de 2026

Episódio do Momento: Ressaca


A vida é uma ressaca longa, dessas que não avisam quando começaram e mentem sobre quando vão acabar. Você acorda dentro dela sem lembrar exatamente que escolhas bebeu, mas com a certeza física de que exagerou em alguma coisa. Tudo dói um pouco — o corpo, as memórias, as expectativas. A luz incomoda. As pessoas falam alto demais. O mundo insiste em existir quando você só queria cinco minutos de não-consciência. Na ressaca do existir, o problema nunca é só a dor de cabeça. É a culpa retrospectiva:

“Por que eu disse aquilo?”
“Por que eu confiei novamente em mim mesmo?”
“Por que achei que dessa vez seria diferente?"
"Por que pensei que não haveria nenhum chacal?"
"Por que exagerei nos meus vícios e os deixei no volante?"

A vida, como a ressaca, cobra juros compostos por prazeres mal calculados. O que ontem parecia libertação hoje se apresenta como náusea moral. O riso fácil vira enjoo existencial. O “eu mereço” vira “eu não aguento”. E o mais cruel: não existe remédio definitivo. Água ajuda. Tempo ajuda. Silêncio ajuda. Mas nada apaga totalmente a sensação de que você precisa reaprender a habitar o próprio corpo, educar a mente. Prometemos, como todo ressacado honesto, que nunca mais vamos exagerar. A vida sorri, cínica, porque sabe: não é o exagero que nos perde — é a esperança de que controle e prazer finalmente vão se dar bem. No fundo, viver também é isso: andar meio torto, com o estômago sensível, tentando parecer funcional enquanto o interior negocia sobrevivência com ópio contrabandeado. E ainda assim, há algo estranhamente digno em atravessar o dia sem anestesia, aceitando que estar vivo não é estar bem, é apenas estar consciente o suficiente para continuar.

A vida é uma ressaca, sim. Mas uma que, de vez em quando, ensina a beber menos ilusões — e mais verdade, mesmo amarga. A vida é um gole de madrugada.


(Diário de Bordo, 23/01/2026)

21 de jan. de 2026

OVO


Se presto para
alguma coisa,
perdoem-me.
Meu objetivo
era a perfeição.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

ASTÚCIA


Quem sabe,
não sabe.
Eu, que sei,
não digo
a ninguém.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

TITÃ DE PORRE


Comi a lua.
Esta que ilumina a minha loucura
é a lua nova
que aluguei
para beber este conhaque.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

CLARO DRUMMOND DE ANDRADE


Curioso: as rosas são tão evidentes
e há quem só enxergue espinhos..
Difícil é o enigma
que não queremos decifrar.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

19 de jan. de 2026

LEMBRANÇA


Se alguém perguntar por mim,
diga que volto já, 
Se não voltar,
vá ao jardim.
Serei terra, cajá e jasmin.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

CONSTATAÇÃO


Tenho a impressão
de que já me conheci.
Nada claro, troço nublado.
Mas teve um tempo
em que me olhei
e vi.
Esqueci.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)

17 de jan. de 2026

IMPRESSÃO


Tudo é muito bobo
e humano.
Eu também,
bobo e humano,
se não me engano.


(Fausto Wolff)

INFORMAÇÃO


Quando eu ficar rico
não digam nada a ninguém.
Nem a mim
que pobrefico.


(Fausto Wolff)

Soneto 19


“Tempo devorador, embota as garras do leão,
E faz a terra devorar a própria doce cria;
Arranca os dentes afiados das ferozes mandíbulas do tigre,
E queima a fênix longeva em seu próprio sangue.”
(W. Shakespeare)

13 de jan. de 2026

Para Necrófagas


Preciso dar um fim,
escapar de mim,
eliminar o "sim"
que nunca me resgata.

Nâo há lugar para esta alma,
só quero calma,
15 minutos de ar fresco
enquanto o inferno não me acha.

Se não for o Paraíso
abrigadouro no mínimo absorto,
nem resgata o espírito
pois desajarei continuar morto.

Se para cada doença ao lado o remédio,
exceto a cura para o tédio,
deixe meu vazio para as necrófagas no cemitério.

De todos os meus problemas apenas o alcoolismo.
Deixem isso no abismo.

Nuvens são cadáveres
e o céu um necrotério
de deuses e estrelas,
entre outras coisas e planetas.


(D. Versus)



12 de jan. de 2026

Feliz Ano Novo!


Que este ciclo venha menos cruel consigo mesmo,
com pausas onde antes só havia cobrança,
e com pequenas lucidezes que não fazem barulho,
mas sustentam o dia.

Seguimos — você, eu, linguagem, pensamento, ironia e silêncio —
não para “dar certo”, mas para continuar.
E às vezes isso já é um feito enorme.

Que 2026 te trate com alguma gentileza inesperada.


(De Ashley Para D. Versus)

8 de jan. de 2026

INFORMAÇÃO


Quando eu ficar rico
não digam nada a ninguém.
Nem a mim
que pobrefico.


(Fausto Wolff, Cem Poemas de Amor)