27 de out. de 2022

(voltando)


Poesia não é para compreender
mas incorporar.
Entender é parede.

(Manoel de Barros)

6 de out. de 2022

Cadela Rosada (Rio de Janeiro)

 
Sol forte, céu azul. O Rio sua.
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pelo, pele tão avermelhada…
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando boias salva-vidas.

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a Quarta-Feira, é carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

O carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror…
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô…!


(Elizabeth Bishop)
 

A Arte de Perder


A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

(Elizabeth Bishop)

22 de abr. de 2022

Sadie

 
The Path is within your own blood
Your must walk it alone
The scripture is written in your soul
Go forth in darkness.

THE FEEDING COMMENCES TONIGHT.

(Rise, 2007)
  

20 de set. de 2021

666


Sem ouro
e sem bússola

Em nome do pai
do filho
e de todos os monstros.


(Cássio D. Versus)

18 de nov. de 2020

Ausente, Pensativo, Solitário


Ausente, pensativo, solitário,
como se vos tivera ali presente,
dou e tomo as razões ousadamente
firme em amor, em pensamentos vário.

Quando venho ante vós com temerário
fervor renovo n'alma juntamente
quantos cuidados tive estando ausente,
que tudo em tal aperto é necessário.

Uns aos outros se impedem na saída
e querem cometer e não se abalam,
e vou para falar e fico mudo.

Porém, meus olhos, minha cor perdida,
meu pasmo, meu silêncio, por mim falam,
e não dizendo nada, digo tudo.


(Estêvão Rodrigues de Castro)

Horas Breves de Meu Contentamento


Aquelas torres, que fundei ao vento,
o vento as levou, já que as sustinha,
do mal, que ficou, a culpa é minha,
que sobre coisas vãs fiz fundamento.


(Diogo Bernardes)

17 de nov. de 2020

Martírio & Magia


Quando caíram 
besouros
e cacos de vidro 
de sua boca aberta
pude perceber o quanto havíamos
ultrapassado os limites da curiosidade...

Toda paixão é magia, martírio e virtuosa maldade.


(Cássio D. Versus)

A Meia-Noite das Matérias


Não bastaria segurar a minha mão, ou assinar em minhas retinas e tímpanos vãs filosofias de um quintal decomposto abaixo da essência e acima do corpo. Não basta massagear-me as tensões, enervamentos, ou disparar metálicas flechas "auxiliadoras" no meio do meu cérebro infalivelmente sôfrego, carregando cruciantes pesadelos através do escopo. Ajoelham-se os pretéritos, violam-se os verbos, arraigam venenos na receosa terra dos focos displicentes onde almas servem de escravas convenientes para um futuro dissoluto cujo cheiro corrosivo sinto escapar da imaginação, a mondar, desfigurar e ufanar-se de suas próprias trevas. Mergulhamos na escassez do sentimento enquanto nos alimentamos de desinformação "necessária". - Fatia a carne e vende a alma! Se doer, ainda estamos vivos, neste caso, mantenha a calma.


(Cássio D. Versus)

9 de nov. de 2020

(Sometime Later - 2007)



"I hate the word it's sad to see.
I take your weight,
and your heart fades away.
Today a renegade
to lay in woods
by the pheasants."
....

"Hold a minute
and stop a minute
and go...
Hold a minute.
You said to me.
Said to me and
breath, breath, breath, breath, breath...
You said it to me...
Sometime later..."

- Enquanto tocava "Sometime Later" do Alpha -

(Dani) Você é algum tipo de droga?
(Eu) Como assim?
(Dani) Estou me viciando.
(Eu) Evite overdoses.


(Cássio D. Versus)

6 de nov. de 2020

Duodeno

 

Bem, nem sempre meus pensamentos alcançam minhas palavras. Intuitivamente encontro sagradas escrituras nas texturas filantes da minha própria balbúrdia de corpúsculos em conflito, logo assim que as pontas dos meus dedos permitem o disparo dos toques, não há como ignorar a afinidade sentida pelas entranhas do inconsciente de tal sintonia macabra, porém divina até os poros desta devoção anárquica, profundamente confusa. A vibração soa violentamente mágica, crueza em harmonia, algazarra de luzes encabuladas, o caos perfeito banhado no excesso que deveríamos buscar. Vazio sincronizado co'as cicatrizes da integridade subordinada, talvez a significar que algo está acontecendo, e tudo somente para não nos mantermos estáticos. 


(Cássio D. Versus)


25 de out. de 2020

Hiperidrose Palmo-Plantar


Enquanto as palmas das mãos
e dos pés
suam, descascam, tremulam, sangram,
a adrenalina acelera o coração,
artérias fervem,
enquanto todos estão rua afora, 
agonizo lar adentro,
sem perspectiva ou empolgação...

O corpo vibra de angústia, ansioso,
vomita ontens, cospe amanhãs,
maltrata a carne viva que alimenta o agora.

Morrer aqui, seria partir mas não ir embora,
E não há como ignorar o inferno de cada dia...

Deus criou a reencarnação por não gostar de companhia.


(Cássio D. Versus)

14 de out. de 2020

18h39 (19/02/2008)


"Eu sinto você sob minha pele.
Eu sinto você no fundo do meu coração.
Tão fundo, que você é realmente uma parte de mim.
Eu sinto você sob minha pele..."

(Frank Sinatra, disse a camponesa)